domingo, 4 de novembro de 2007

Capítulo 3 –Jornalismo: Undergrounds

A maior divulgação da contracultura feita no Brasil era na coluna de Luiz Carlos Maciel chamada Underground e publicada no jornal Pasquim, principalmente por que, no início da publicação, toda a juventude lia o tablóide. A partir de 79, o público principal passou a ser de profissionais liberais com pelo menos 35 anos[1]. Foi um dos mais lembrados da imprensa alternativa e também um o que mais durou. Maciel, que, a contragosto[2], foi considerado o “guru” da contracultura brasileira, foi um dos editores de mais uma publicação da imprensa alternativa, a Flor do Mal. Este, ao contrário do Pasquim que resistiu até o número 1072[3], só teve cinco edições e tinha como lema “a liberdade da loucura de cada um”[4], na definição de seu fundador. O título era inspirado pelo poeta Charles Baudelaire[5] e teria sido uma idéia do poeta Torquato Neto. O primeiro número do Flor do Mal, que quase foi censurado, tinha uma sinistra frase de Baudelaire sobre a imprensa e a foto de uma menina anônima.

O Flor do Mal foi muito bem considerado nos círculos da contracultura, especialmente os mais radicais; e, admito, muitíssimo mal considerado fora desses círculos. O elogio ao Flor de que tive notícia e que mais me tocou foi do Hélio Oiticica, para quem este era o único jornal não-machista da imprensa brasileira. Em careta contrapartida, porém um psiquiatra chegou pra mim e disse:

- Esse seu jornalzinho aí é igualzinho ao que os malucos da minha clínica fazem como terapia.

Não me ofendi nem um pouco. Realmente, Flor do Mal era um jornal bem louco.[6]

Entre os cerca de 150 periódicos que circularam entre 1964 e 1980 e ficaram conhecidos como imprensa alternativa[7], Flor do Mal, Presença, Rolling Stone e Bondinho eram os principais divulgadores das alternativas de vida criadas pela contracultura no exterior e aqui no Brasil. Presença só chegou ao segundo número e seu tema principal eram as viagens a lugares exóticos, divulgando assim a tendência pelo Orientalismo, tão presente na contracultura. Rolling Stone, basicamente uma tradução da revista homônima norte-americana, era editada por Maciel. O primeiro número saiu em 1972, saudando a volta de Caetano ao Rio de Janeiro[8]. O tema geral da revista, portanto, era rock´n roll, essa expressão da cultura de massa daquilo tudo que foi a rebeldia dos jovens dos Estados Unidos da América. Além disso, foi “um dos primeiros espaços a tratar de assuntos como ecologia, macrobiótica e libertação feminina”[9]. Bondinho, que começou como um jornal de serviços do grupo Pão de Açúcar para a classe média paulistana, aos poucos adotou uma linha editorial alinhada à contracultura. Liberou-se tanto dessa relação comercial que, após um contato com Caetano e Gil por ocasião do retorno deles do exílio e de uma edição dedicada aos dois novos baianos, adotou, segundo Kucinski[10], a filosofia do trasbunde: liberação geral. A semelhança entre transbunde e desbunde vai além da sonora, é claro. Ainda segundo Kucisnki, A redação foi toda morar em comunidade numa casa onde se praticava o amor livre e se tomava ácido, discutia Willian Reich e Roberto Freire. Outra conseqüência desta libertação foi a decisão de colocar o Bondinho a venda nas bancas de jornal de todo Brasil, na tentativa de sustentá-lo com anúncios.

Vamos nos deter um pouco mais no Bondinho, pois é, sem dúvida, um dos melhores exemplos de jornal contracultural que tivemos no Brasil. Era produzido pela empresa jornalística alternativa Arte e Comunicação (A&C). O projeto visual era muito ousado para a época, além de colorido e muito bem acabado, mantendo-se avançado até para os padrões atuais. As entrevistas, em geral com ícones da contracultura, eram publicadas na íntegra, sem cortes. Passaram por suas páginas quase todos os tropicalistas, políticos e médicos alternativos; como Jerry Rubin, o fundador do Yippie (ou partido internacional da juventude), o terapeuta corporal Dr. José Ângelo Gaiarsa e médicos alternativos da clínica livre de Ashbury Height (Bairro Hippie em São Francisco), feministas, como Simone de Beavouir e Rose Marie Muraro, e artistas, como Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, José Celso Martinez, Rogério Duprat, Jorge Mautner e Luis Carlos Maciel[11]. Até Roszak, autor tão importante para esta pesquisa, era anunciado com um dos melhores livros teóricos sobre a contracultura. Para completar, esoterismo - na edição de 17 a 30/3 de 1972, por exemplo, havia um curso prático de quiromancia -, vida comunal e uma seção de cartas realmente desbundada, com direito a pessoas procurando parceiros para diferentes transas, especificando apenas o signo zodiacal de preferência.

3.1 Censura, repressão e imprensa contracultural

A censura, a partir de 68, impedia a grande imprensa de tratar de muitos assuntos. Isto criou um espaço a imprensa alternativa crescer e dentro dela que ocorreu boa parte da divulgação da contracultura. Segundo Maciel[12], a relação entre um poder totalitário e o desenvolvimento da contracultura vai mais além do que impulsionar a produção contracultural para um mercado alternativo:

A Guerra do Vietnã foi fundamental para a gestação da contracultura americana. E no Brasil, a ditadura militar foi fundamental para a gestação da contracultura brasileira. Ela passou a ser uma opção para aqueles jovens que estavam indignados, eram contra a ditadura e tudo mais, mas com instintos mais pacifistas, sem disposição para pegar em armas. Achavam que a solução de partir para guerra era violenta demais para suas sensibilidades delicadas. Preferiam fumar maconha a dar tiros.

Jimi Hendrix e Janis Joplin eram figuras habituais da coluna Underground, tanto que, na edição de número 67, de outubro de 1970, Maciel comparou ao Apocalipse as mortes, num espaço de apenas 15 dias, das mortes daquelas duas estrelas cadentes no firmamento do Rock. Para logo depois criticar a grande imprensa por acusar a causa mortis como sendo o abuso de drogas, mesmo antes de se saber realmente as causas das mortes de Hendrix e Joplin. Maciel não chegou a ponto de fazer uma apologia das drogas, apenas se indignava com o fato, muito mal divulgado, de que Jimi Hendrix não morreu pelo abuso das variadas drogas ilegais que costumava usar, mas por uso de barbitúricos, uma droga perfeitamente legal e burguesa.

Logo depois desta coluna ser publicada, Maciel foi preso, junto com Ziraldo, Francis e outros da redação. “No dia 1º de novembro de 1970, com o número 72 já na gráfica, Cabral e Fortuna estavam (...) no interior do Estado do Rio, quando foram avisados...”[13] Ficaram dois meses presos e nunca souberam o motivo da prisão. Por esta estória pode-se perceber o grau de dificuldade de se fazer um jornal alternativo naquela época no Brasil, muito mais difícil do que, por exemplo, editar lá nos E.U.A. quadrinhos underground como Zap Comics ou Freak Brothers. Foi só depois desta prisão “guru” da contracultura fundou, junto com Torquato Neto, Tite de Lemos e Rogério Duarte, o jornal Flor do Mal. Ou seja, os dois meses de prisão não quebraram a verve contracultural de Maciel, ao contrário, pois, como já foi explicado, depois de Flor do Mal acabar ele ainda editou a revista Rolling Stone tentou, embora sem sucesso, fundar o jornal Kaos, com a participação de outros dois ícones da contracultura brasileira, o músico Caetano Veloso e poeta Jorge Mautner. Este último, segundo Maciel, “já era um veterano do desbunde, pois vinha do tempo da beat generation, acho que foi o primeiro beatnik brasileiro, quando escreveu seu primeiro livro, Deus da chuva e da morte.”[14]

3.2 Um fim e novos começos

Desde o A.I. 5, em 1968, a censura se abatia duramente sobre a grande imprensa. Era proibido noticiar muitas matérias e em muitos jornais havia censores na redação. Até listas com relações das notícias proibidas eram entregues costumeiramente nas redações. Se isto não bastasse, o Jornal Nacional em rede cumpria o papel de informar a população sobre os fatos mais importantes. Com todos estes fatores não é de se estranhar uma necessidade por veículos de imprensa alternativa, capazes de publicar o que não podia sair na grande imprensa.

Existiram muitos periódicos entre o final dos anos 60 e o início dos 80. Segundo COELHO (2005), foram cerca de cento e cinqüenta diferentes publicações que abordavam diferentes assuntos, mas tinham em comum um discurso impossível para a grande imprensa de então. Estas publicações eram quase sempre no formato tablóide, um pouco menor em relação aos jornais da grande imprensa, e tinham grande público. O sucesso editorial era responsável por manter o funcionamento e era a maior fonte de renda. Os anunciantes eram reprimidos pela repressão, algumas vezes diretamente, e estes fugiam da imprensa alternativa.

As tentativas da ditadura de acabar com a imprensa alternativa num primeiro momento não deram certo e esta se firmou num mercado alternativo. Apesar das dificuldades de produzir sem saber se vai haver recolhimento dos exemplares nas bancas, muitas publicações floresceram e, com coragem, conseguiram publicar muitas notícias que a ditadura preferia manter sem espaço. A morte do jornalista Vladimir Herzog foi um destes casos, noticiada apenas pelo semanário ex-16. Outros veículos capazes de burlar a censura e informar, além de poder mostrar opiniões, foram Opinião e Movimento. O primeiro começou em 1972, teve 230 edições e venderam 40 mil exemplares de apenas uma edição. O segundo começou três anos depois e durou até 23 novembro de 1981. O fim deste jornal e de grande parte da imprensa alternativa tem início nos anos 80. COELHO (2005) atribui o início dessa derrocada a uma serie de explosões de bombas em bancas de jornal foi o ponto final desta história, pois sem jornaleiros dispostos a vender veículos da imprensa alternativa por temer contra a própria vida, esta então não pôde mas resistir e, finalmente, acabou. Entretanto, segundo KUCINSKI (1991), as explosões começaram em meados de 1977, de maneira intermitente e em “caráter de uma campanha a partir de junho de 1980, atingindo apogeu em agosto, quando bancas de jornais em várias capitais são incendiadas e os jornaleiros começam a recusar os jornais alternativos”.

Dentre todas publicações feitas neste período uma se destacou por sua singularidade. O Pasquim começou, sem muito alarde, em 26 de junho de 1969, como se fosse só mais uma brincadeira da turma de Ipanema. Foi um sucesso tremendo e alguns de seus números superaram a marca de 200 mil exemplares, isso era mais do que vendiam os jornais da grande imprensa. Além de ter sido o tablóide alternativo com maior duração. Os militares odiavam e só liberavam a venda depois de rigorosa censura. Segundo JAGUAR e AUGUSTO (2006), era necessário, para conseguir passar 80% de um jornal pela censura, enviar 230%. A maior parte nunca veria as gráficas. Alguns números foram recolhidos e a maior parte da redação ficou dois meses presa, sem nunca receber uma explicação. Como muitos outros periódicos da imprensa alternativa, O Pasquim também não resistiu e sucumbiu. Um de seus membros, Ziraldo, tentou ressuscitá-lo em 2001 com o nome de O Pasquim21; porém, não foi bem sucedido e o jornal acabou em 2003 por problemas financeiros, deixando, além de fãs, dividas.

A contracultura brasileira foi uma forma de resistência ao regime militar, mas, principalmente, resistia à lógica cruel da indústria cultural. Exatamente no momento de consolidação desta indústria de bens simbólicos no Brasil, grupos de pessoas se juntavam para tentar uma alternativa para a cultura, fora da lógica mercadológica imposta por uma indústria também responsável por aprofundar a integração nacional. Isto mostra uma capacidade crítica de nossa nação, nós não simplesmente engolimos novos modelos culturais, mas conseguimos construir alternativas viáveis, ao menos por algum tempo.

3.3 Depois das explosões

Mesmo depois da série de explosões de bancas de jornal, a imprensa alternativa continuou. A prova disso é o jornal mensal Luta & Prazer. Este jornal não é mencionado por KUCINSKI (1991) ou COELHO (2005), mas tem sua trajetória desenhada por AGUIAR (2006).Assim como tantas outras publicações voltadas para temas alternativos, a duração desta não foi longa. Foram publicadas 18 edições de Luta & Prazer, sendo a primeira de agosto de 1981 e a última de maio de 1983. A estrutura, porém, impressiona: distribuição nacional, três redações (Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte) e correspondentes em várias cidades do Brasil. Portanto, apesar dos temas alternativos, a produção era profissional. Com 35 mil exemplares, o primeiro número trazia a epígrafe “este jornal traz o novo, a vida. Experimente” e a manchete “Como a esquerda vai para a cama?”.

Ao aprofundar-se, não só nesta, mas em todas as edições, é possível perceber uma linha editorial voltada para a micropolítica, ou “política do cotidiano”. Além de variadas práticas alternativas, ao longo de suas 18 edições, o jornal apresenta uma série de temas malditos, tais como drogas e bissexualismo. Ao escolher a contra-mão dos valores dominantes, opta-se por “uma recusa que visa construir novos modos de sensibilidade e criatividade, produtores de uma subjetividade singular” (AGUIAR, 2006).

Diferentemente de tantos outros periódicos estudados, o Luta & Prazer nunca sofreu censuras. Apesar de algumas edições terem sumido de bancas, segundo Juliano Serra, editor de arte do jornal[15]. Isso porquê, na época, não era de bom tom fazer censura O próprio incidente das explosões nas bancas, apesar de já não mais ocorrer, serviu de incentivo. Segundo Dau Bastos, editor geral do periódico, fazer o jornal era manter acesa a chama do alternativo[16]. Incentivo muito necessário, pois, apesar da relativa longa duração da publicação, não faltaram dificuldades financeiras.



[1] Estas informações fazem parte o trabalho de pesquisa realizado por uma equipe da qual participei no período em que fui estagiário no Jornal O Pasquim 21.

[2] MACIEL, Luiz Carlos (1996).

[3] JAGUAR e AUGUSTO, Sérgio (org.) (2006).

[4] COELHO, Andréa (2005).

[5] MACIEL, Luiz Carlos. Op. cit.

[6] Idem.

[7] COELHO, Andréa. Op. cit.

[8] MACIEL, Luiz Carlos (1996).

[9] COELHO, Andréa (2005:14).

[10] KUCINSKI, Bernardo (1991).

[11] Bondinho – Coleção completa.

[12] Entrevista concedida a Dorigatti (23/09/2005).

[13] AUGUSTO, Sérgio. Op. cit.

[14] MACIEL, Luiz Carlos. Op. cit.

[15] Anexo.

[16] Idem.

Um comentário:

Lívia Inglesis Barcellos disse...

Bom dia,
Gostaria de saber mais informações sobre a revista Flor do Mal.
Quem foi o fundador, editor, etc.
E se possível o contato de algum, ou alguém que tenha conhecimento e possa falar sobre.
Sou estudante de jornalismo da PUC-SP, estou fazendo um trabalho sobre a revista, mas até o momento não consegui muitas informações.

Obrigada!

Lívia Inglesis Barcellos

contato: liviib.0511@gmail.com ou
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