sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

LIBERDADE DE IMPRESSÃO: jornalismo contracultural



Um ótimo filme sobre jornalismo contracultural da Larissa Helena e do Fábio Mendes. Eles conversaram com algumas das pessoas que mais entendem sobre o assunto no pais, como Maciel e Kucinski, e comigo, que pesquisei muito o tema durante a faculdade e escrevi um livro sobre o assunto.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O livro vai virar filme...

 

Fui entrevistado por alunos de jornalismo na UNIMEP. Larissa e Fábio vieram de Piracicaba para me entrevistar depois de ler "Imprensa Alternativa Brasileira e a Contracultura".  Foi um papo bacana, na praia do Leme, sobre jornalismo, redações, contracultura  e internet.

Eles também entrevistaram o Luiz Carlos Maciel, que dispensa apresentações.  A entrevista vai virar um filme que faz parte do trabalho de conclusão desses jovens jornalistas. Assim como o meu trabalho de conclusão virou este blog e o livro que motivou esta entrevista. E em breve, virará também um filme. Quando ficar pronto, compartilho com vocês.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Lançamento dia 14 de Maio


Esta pesquisa, vai finalmente ser publicada em versão estendida e revisada pelo autor. Quem gostou do blog, compre o livro. Quem ainda não leu, aproveite para ler a versão estendida.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Contracultura e modernismo: relações rebeldes

APRESENTAÇÃO

Durante a minha graduação, estudei o período da contracultura e suas manifestações; tema que sempre me interessou. Durante as aulas de Estética e Comunicação do curso de especialização em jornalismo cultural da UERJ, ao estudar a arte modernista do início do século XX, me deparei com a seguinte hipótese: a contracultura é uma última manifestação de traços característicos do modernismo. Tal hipótese apoiada nos conceitos de modernidade e pós-modernidade tal como foram apresentados por ANDERSON[1], GIDDENS[2] e JAMESON[3] será testada neste estudo, com o objetivo de chegarmos a um entendimento mais profundo e preciso sobre a ligação deste dois movimentos.

INTRODUÇÃO

As expressões contraculturais clássicas[4] através do mundo apontam para o traço definitório do próprio conceito de contracultura: ela é, como diria MARCUSE em seu Prefácio Político de 1966 para Eros e Civilização (1968[1966]), a possibilidade de “inverter o rumo do progresso” e “romper a união fatal de produtividade e destruição, de liberdade e repressão”. É, portanto uma recusa ao Sistema e à tecnocracia, no sentido dado por ROSZAK (1972[1969]): a sociedade de especialistas, cujos valores definem as sociedades desenvolvidas, sejam elas capitalistas ou socialistas, e cujos métodos de dominação se aperfeiçoam a ponto da força física não ser necessária; nestas sociedades a dominação é feita principalmente na esfera da criação de subjetividade e do desejo. Ou seja, a contracultura se caracteriza, tanto na esfera comportamental quanto na artística, pela sua oposição ao Sistema e aos valores tecnocráticos e científicos que servem de base para a civilização ocidental, mas também pela apresentação de novas formas de sociedade.

Esta recusa foi vista com muita esperança, por estudiosos como ROSZAK[5]. “Se fracassar a resistência oferecida pela contracultura, creio que nada nos restará senão aquilo que antiutópicos como Huxley e Orwell previram”. Infelizmente, a esperança se revelou ingênua e a chama revolucionária presente no Ocidente desde o modernismo finalmente se apagou. A situação atual é bem definida pelo jornalista Toninho Vaz[6]:

Não existe mais necessidade e nem possibilidade de movimentos de contracultura. Pelo contrário, a época é de globalização. O mundo de George Orwell chegou. Somos todos “replicantes” e Deus está morto. O mundo e a natureza selvagem já estão no catálogo virtual do homem, que continua rompendo os espaços das galáxias. Diante disso, você pode se descabelar ou apenas ler um poema de Walt Witman. Vai depender da sua sensibilidade.

Muito já foi dito sobre a contracultura, mas ela ainda não foi suficientemente estudada, e, se o foi, pode não ter sido observada por todos os ângulos possíveis. As relações desta com o altamente prestigiado modernismo do início do século XX.

DESENVOLVIMENTO

Apesar de atualmente a ingenuidade de quem acreditou numa ou noutra mudança ser evidente, na época não era e, para entendermos melhor a proximidade entre modernismo, devemos utilizá-la como uma das principais chaves de compreensão. Afinal, uma das três coordenadas para o modernismo apresentadas por ANDERSON é justamente a proximidade imaginativa da revolução. Ao utilizarmos estas coordenadas para analisar não o modernismo, mas a contracultura, necessitaremos de alguns ajustes e então conseguiremos evidenciar semelhanças estruturais entre os dois movimentos.

Tratemos primeiro da proximidade imaginativa da revolução social. Enquanto no início do século uma revolução socialista parecia não apenas viável, mas também louvável; depois da metade do século a situação estava bem diferente. No mundo polarizado pela Guerra Fria os defeitos de ambos sistemas se evidenciavam e uma revolução social era quase sempre descartada. O movimento contracultural desejava mudanças sim, mas estas mudanças estavam na esfera dos direitos civis, liberdades individuais, pacifismo e estilo de vida; ou seja, na esfera da micropolítica, ou “política do quotidiano”. Além disso, a Guerra do Vietnã e as várias ditaduras na América Latina eram inimigos bem reais; vencê-los através do pacifismo (nos Estados Unidos) ou da luta armada (na América Latina) seria sem dúvida uma revolução de peso. Como sabemos, nenhuma das duas se concretizou. Enquanto atualmente poucos acreditam em revolução em face da vitória do capitalismo e da ausência do que possa substituí-lo; na época da contracultura havia muito pelo que lutar e, ao menos nas mentes, a revolução era possível.

Vamos à segunda coordenada; academicismo muito forte. Se não podemos ver uma alta cultura tão forte em comparação com período anterior e temos em maior evidencia a cultura de massa, vemos uma maior popularização do sistema de ensino universitário, responsável por levar educação de nível superior à classe média. Tal popularização levou conhecimento antes restritos à elite para vastas parcelas da população mundial e, com este conhecimento foi embasada a contracultura. A dialética academicismo muito forte / novas formas de arte fora substituída, na segunda metade do século por outra um tanto mais simples: jovem / não-jovem. Ficou clara a importância do antagonismo entre gerações e foi então que a juventude passou a se organizar como um poder político autônomo.

Por fim, tratemos do surgimento de novas tecnologias. Indiscutivelmente a mais importante tecnologia do momento é a televisão. Este aparelho é responsável por finalmente consolidar a consolidação do inconsciente humano. Uma máquina de prazer capaz de moldar as mentes desde a infância. Tão forte era sua influência que praticamente toda a arte produzida no período era influenciada ou fazia referência de alguma forma à T.V. e ao seu universo de sonho. Entretanto, a massificação e o código de símbolos foi sendo subvertido; a isso se deve o forte caráter popular na arte contracultural. Em menor escala, a guitarra elétrica teve importância, afinal possibilitou o Rock 'n' Roll e a propagação de suas idéias através de letras de música.

Uma outra tecnologia teve um impacto transformador tanto no mundo real, quanto no imaginário. A destruição de Hiroshima por uma artefato atômico além de acabar definitivamente com a II Guerra Mundial colocou o fim do mundo, ou pelo menos sua possibilidade, à distância de um botão. O apocalipse nunca esteve tão perto das mentes e dos corações humanos. Tal proximidade com o fim levou a um sentimento generalizado de niilismo e, por sua vez, o niilismo junto com a abundância econômica do período pós-guerra foram fundamentais para a gestação da contracultura.

É na América, nesse peculiar nexo de niilismo e jovialidade, otimismo tecnológico e poder militar excessivo, um lugar onde expectativas e desejos que tinham sido cultivados ao longo de muitas vidas estavam começando a ficar disponíveis em questões de momentos, a terra do jazz e da algazarra, que começa a história da contracultura na segunda metade do século XX[7].

Podemos constatar, portanto, os mesmos fatores formadores do modernismo no momento da contracultura, apesar das diferenças observadas. Vejamos mais de perto o nascimento deste movimento. Todos os autores estudados concordam que o nascimento da contracultura se dá com a publicação do poema “Howl”, de GINSBERG, Allen (1956). GINSBERG era uma das mais expressivas figuras do que ficou conhecido, por conta de uma frase dele mesmo, como a beat generation. Ele foi praticante de filosofias orientais e sua presença era aplaudida mesmo que não pronunciava palavra nenhuma. Os beats foram os precursores ideológicos dos hippies, que ficaram bem mais conhecidos e só surgiram nos anos 60; ambas as tribos eram adeptas da filosofia do Drop Out, ou seja, ao invés de tentar lutar por mudanças no sistema, preferiam cair fora e “curtir a vida” como bem entendessem, bem longe dos que poderiam os incomodar ou mais, mas sem dar importância às críticas e preconceitos dos “caretas”, na orla boêmia, aonde o conceito de normal, pouco a pouco, transformou-se, a ponto do “careta” ser mal-visto e não o jovem beat ou hippie.

Assim como tantos, GINSBERG vivia numa busca hedonista. Sem se preocupar com convenções de sua época, ou mesmo o bom senso, o poeta era um rebelde e procurou sua visões extáticas de maneira não- convencional com a ingestão de alucinógenos, estudos budistas; além de ser homossexual. Usamos GINSBERG como exemplo, mas poderíamos utilizar muitos outros, alguns até mais dramáticos, como Janis Joplin, Jimmi Hendrix ou Jim Morrison; todos morreram jovens e devido ao uso excessivo de entorpecentes. O poeta Beat viveu bem mais, até seus 70 anos. Tais excessos são o lado negro da contracultura, o calcanhar de Aquiles responsável pela derrocada final. Hoje não há profetas de drogas, como Timothy Leary ou Ken Keasey, em seus lugares, perigosas quadrilhas de crime organizado.

(...) a contracultura é freqüentemente acusada de abrir o espaço para sua própria cooptação: sua ética do prazer é vista não como resistência senão como "hedonismo", e portanto como expressão da lógica do capitalismo tardio e seu subseqüente marketing de estilos de vida.

Explicou ADELMAN com perspicácia. Entretanto, é importante observar não se tratar da contracultura ter aberto as portas para um estágio avançado de capitalismo ou não; afinal seria ingenuidade creditar tais mudanças a um movimento restrito como foi a contracultura. Tal confusão é facilmente compreensível: atualmente é possível comprar “pastiches” da contracultura em bancas de jornal ou mesmo sem sair de casa, através da internet. Na época os artistas não visavam o mercado e a arte era em geral autoral. Além disso, muitas vezes o mercado era evitado e substituído, em geral, por mercados alternativos. A cooptação e reprodução do hedonismo presente no movimento não coube aos seus participantes e foi feita justamente por quem eles combatiam.

Talvez uma absorção pela indústria cultural possa desvirtuar a essência de um movimento. Muitos autores estudados apontam que o movimento alternativo encerrou seu ciclo histórico, por conta da comercialização dos valores contraculturais tão comum na atualidade. Entretanto, a absorção seja, além de inevitável, muito esperada. Foi exatamente esta a afirmação de Jorge Mautner, poeta da contracultura. Já em 1972 ele disse, em uma entrevista para o jornal Bondinho, ser uma reforma cultural a inserção da contracultura na cultura dominante, trazendo, assim, a atenção não para as derrotas, mas para as vitórias deste movimento. Quem explica é o próprio Mautner: “Se é inevitável essa absorção, vamos então fazer com que essa absorção seja feita de modo a talvez preservar o que seja, o que mereça ser preservado, o que é a essência da coisa”. Aparentemente não foi o que aconteceu, ao invés de preservada o essencial, preservou-se o periférico, por exemplo, o hedonismo.

Voltemos às relações entre modernismo e contracultura; ambos movimentos se caracterizaram por uma atitude rebelde, salvo algumas exceções, por exemplo, o Futurismo, aliado do Estado Fascista na Itália. Porém, enquanto os primeiros se rebelavam contra ordem sociais pré-modernas ou os horrores da guerra; aos segundos coube o medo da bomba e a repressão política das ditaduras de direita ou esquerda e do macarthismo. “O hipsterismo floresceu na própria ansiedade nuclear (...). A possibilidade de um apocalipse instantâneo criava uma desculpa perfeita para fugir das responsabilidades (...). O Hipster estava livre para viver o momento[8]”.

Durante a segunda metade do século XX não houve uma multiplicidade tão rica de obras de arte e estilos estéticos, em comparação ao início do mesmo século. Entretanto, arte de alta qualidade e ousadia foi feita no período deixou-se um legado ainda hoje influente na cultura mundial. No campo da estética a principal estilo foi a vigorosa arte Pop, criando desde a década de 50 uma arte capaz de absorver e subverter tudo produzido de uma forma ou outra pela indústria cultural. “Ao aproximar arte e design comercial, o artista borra, propositadamente, as fronteiras entre arte erudita e arte popular (...)[9]”.

Por incorporar os elementos de consumo na arte, é considerada pós-moderna. Fato que a coloca em um campo diferente do da contracultura, mas ainda assim, serve para ilustrar a criatividade artística do período tratado. Além disso, não foi o único movimento artístico existente então. O expressionismo abstrato e o action-panting de Jackson Pollock são exemplos de arte vinculada aos valores modernistas, não aos pós-modernistas, como era a arte Pop.

Um dos movimentos artísticos mais importantes dentro da contracultura foi o happening. O termo em si foi cunhado no final dos anos 50 por Allan Kaprow; diz respeito a um misto de artes plásticas e cênicas de difícil definição. O objetivo era induzir repostas criativas da platéia a partir de seqüências de eventos não-lineares e a baixa necessidade de recursos ajudou em sua propagação. JAMESON evidencia o nível de importância ao relatar “(...) a emergência dos chamados happenings, discutidos por todos, desde Marcuse até os suplementos dos jornais de domingo[10]”. Entretanto, essa importância não se limita à abundância de comentários, é estética:

(...) os happenings levam essa situação ao seu extremo ao proclamar a eliminação completa da desculpa do texto e oferecer um espetáculo de pura representação, enquanto também procuram paradoxalmente abolir as fronteiras e as distinções entre a ficção e o fato, entre a arte e a vida[11].

E também é política.

As inovações teatrais se posicionaram então como um gesto simbólico de protesto estético, como inovação formal apreendida nos termos de um protesto político e social, acima e além dos termos especificamente estéticos e teatrais em que tais inovações eram expressas[12].

Sobre a música dos anos 60 e alguns de seus maiores ícones, Rolling Stones, Beatles e Bob Dylan, existem duas constantes: a busca por uma arte de autor, mesmo se houver risco de desagradar ao público; e o efeito de drogas ou misticismo transformando a arte. Esta semelhança entre estes três símbolos máximos da música da contracultura é desprendida da observação das trajetórias destes músicos desenhada por PEREIRA (1986). As expressões artísticas contraculturais tiveram em comum o fato de não necessitarem de muito capital, apenas de um circuito alternativo; tudo que produziam, tirando algumas exceções, era de maneira artesanal.

CONCLUSÃO

Como pudemos observar, as relações entre o modernismo do início do século XX e a contracultura da segunda metade do mesmo século são várias e profundas. As estruturas e coordenas para a formação de ambos movimentos guardam semelhanças inegáveis. Além disso, uma atitude rebelde se desprende igualmente dos dois. No plano estético, a busca por inovações é constante e, em geral, motivada por um impulso de protesto e revolução.

A arte contracultural apesar de dialogar com a indústria de consumo ainda não é um produto pós-moderno, como é a arte Pop. Isso coloca-a exatamente como o último momento modernista antes da consolidação do pós-moderno. Por situar-se em um momento de transição, tal colocação pode ser um pouco nebulosa, mas é perceptível ao olhar atento. O próprio advento de “pastiches” da contracultura durante o pós-moderno reforça a idéia dela provir de um período anterior, moderno.

Assim, acreditamos termos comprovado a hipótese da contracultura ser um último suspiro modernista antes do pós-moderno tomar definitivamente o cenário artístico. Tal comprovação pode servir para valorizar a contracultura, tantas vezes criticada por causa de seus excessos e até descartada como um movimento artístico de menor importância. Por fim, ao observarmos com mais cuidado as diferenças entre pós-modernismo e contracultura, e associando esta última ao modernismo, veremos com mais detalhes a tênue fronteira entre modernismo e pós-modernismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADELMAN, Mirian (2001). O reencantamento do político: interpretações da contracultura. Curitiba: Revista de Sociologia e Política.

ANDERSON, Perry (2002). Afinidades seletivas. São Paulo: Boitempo Editorial.

__________, _____ (1999). As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

GINSBERG, Allen (2005[1956]). Uivo e outros poemas. Porto Alegre: L&PM.

GOFFMAN, Ken e JOY, Dan (2007). Contracultura através dos tempos. Rio de Janeiro: Ediouro.

JAMESON, Fredric (2001). A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalização. Petrópolis: Vozes.

LONGO, Leila (2008). Estética & Comunicação. Rio de Janeiro: UERJ.

MARCUSE, Herbert (1968[1966]). Eros e civilização – Uma crítica filosófica ao pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

PEREIRA, Carlos Alberto M. (1986). O que é Contracultura. São Paulo: Brasiliense.

ROSZAK, Theodore (1972 [1969]). A Contracultura – Reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. Petrópolis: Vozes.



[1] ANDERSON, Perry.

[2] GIDDENS, Anthony.

[3] JAMESON, Fredric.

[4] Os dois momentos responsáveis por influenciar um milhão de jovens através do globo, por sua contestação de valores, rebeldia e uma nova forma de contestar: Woodstock e o Maio de 68 na França. O primeiro marcou o lado lúdico do movimento e continua sendo visto com saudosismo; muitas festas já tentaram reviver o espírito do festival. O evento na França, porém, teve influência redobrada para a contracultura tupiniquim, pois muitos intelectuais brasileiros estavam, por vontade própria ou não, exilados na Europa e puderam assistir aos efeitos demolidores do anarquismo francês, ou como diriam alguns dos próprios participantes da revolta, “marxismo tendência Groucho”, em referência ao comediante Groucho Marx.

[5] Ao analisar a contracultura, principalmente nos Estados Unidos, ROSZAK acreditava que este movimento de jovens rebeldes poderia transformar o mundo profundamente. Para este autor, a contracultura era a maior contestação do modo de vida ocidental já criado e a única esperança de acabar com a tecnocracia e buscar um modo de vida mais humano. Passadas algumas décadas podemos perceber que das teorias de ROSZAK sobre o futuro da contracultura, com exceção da crescente incorporação desta pela tecnocracia, nenhuma se concretizou. O mundo mudou, é certo, mas enfim a tecnocracia não foi destruída e, apesar de decadente, ainda mostra bastante fôlego, ao contrario da contracultura. Afinal nos parece é que se houve uma batalha entre a tecnocracia e a contracultura, a segunda nunca teve mesmo muita chance. Talvez não se deveria ter esperado outra coisa, pois os jovens da contracultura talvez não quisessem mesmo mudar o mundo, afinal podiam estar mais preocupados mesmo em “curtir um barato”.

[6] Entrevista concedida ao autor em 2007. Toninho Vaz é jornalista e autor das biografias de duas importantes figuras da cena contracultural brasileira: Paulo Leminski e Torquato Neto.

[7] GOFFMAN, Ken e JOY, Dan (2004).

[8] Idem.

[9] LONGO, Leila (2008).

[10] JAMESON, Fredric (2001).

[11] Idem.

[12] Ibdem.

domingo, 4 de novembro de 2007

Introdução

Apesar de muito já ter sido dito sobre a contracultura, ela ainda não foi suficientemente estudada, e, se o foi, pode não ter sido observada por todos os ângulos possíveis. A contracultura, que nasceu nos Estados Unidos, ao chegar em terras tupiniquins, com alguns anos de atraso em relação aos países desenvolvidos, se misturou com os movimentos culturais que se deram e se davam no Brasil de então, principalmente a arte engajada e o tropicalismo. A rápida sucessão dos movimentos, devida, em parte, à instabilidade política da região, e a convivência de elementos dessas três vertentes culturais dificultam a apreensão dos contornos da contracultura brasileira.

Portanto, para entender a contracultura, não seria possível apenas observar a história de nossa nação sem também observar a contracultura desde de seu nascimento em terras estrangeiras. Ou seja, primeiramente devemos definir o conceito de contracultura, para só depois, nos capítulos que seguem esta introdução, aplicar o conceito previamente definido nas expressões artísticas e comportamentais mais significativas e em algumas figuras emblemáticas da contracultura no Brasil. São elas: O comportamento de recusa ao sistema, de cair fora e levar um estilo de vida hippie e que foi chamada no Brasil de “desbunde”, a poesia produzida por artistas que se recusavam a entrar no esquema da indústria cultural, por uma geração que ficou conhecida por sua poesia marginal e seus livrinhos artesanais produzidos em mimeógrafos; e o jornalismo contracultural impulsionado pela necessidade de uma impressa alternativa decorrente da censura.

As expressões artísticas e comportamentais tiveram em comum o fato de não necessitarem de muito capital, apenas de um circuito alternativo; tudo que produziam, tirando algumas exceções, era de maneira artesanal. O estilo de vida hippie era mantido sem muito dinheiro. Este fato também é comum nas expressões clássicas da contracultura através do mundo, e aponta para o traço definitório do conceito de contracultura: ela é, como diria Marcuse em seu Prefácio Político de 1966 para Eros e Civilização (1968[1966]), a possibilidade de “inverter o rumo do progresso” e “romper a união fatal de produtividade e destruição, de liberdade e repressão”. É, portanto uma recusa ao Sistema e à tecnocracia, no sentido dado por Roszak (1972[1969]): a sociedade de especialistas, cujos valores definem as sociedades desenvolvidas, sejam elas capitalistas ou socialistas, e cujos métodos de dominação se aperfeiçoam a ponto da força física não ser necessária; nestas sociedades a dominação é feita principalmente na esfera da criação de subjetividade e do desejo. Ou seja, a contracultura se caracteriza, tanto na esfera comportamental quanto na artística, pela sua oposição ao Sistema e aos valores tecnocráticos e científicos que servem de base para a civilização ocidental, mas também pela apresentação de novas formas de sociedade.

Para melhor entender a relação entre cultura e contracultura, é interessante utilizar a analogia da cultura de massa produzida pelo Sistema como sendo a correnteza de um rio, despejando bens simbólicos em toda massa consumidora, impondo autoritariamente seus valores. Este é o Mainstream, a corrente central. Paralelamente a esta corrente existe uma contra corrente, a contracultura, criticando os valores da primeira. A localização desta contra corrente cultural é à margem da sociedade, seus atores dificilmente têm voz nos meios de comunicação e, por isso, seus valores são marginalizados pela sociedade em geral.

Todos os autores estudados concordam que o nascimento da contracultura se dá com a publicação do poema “Howl”, de Allen Ginsberg (1956). Ginsberg era uma das mais expressivas figuras do que ficou conhecido, por conta de uma frase dele mesmo, como a beat generation. Ele foi praticante de filosofias orientais e sua presença era aplaudida mesmo que não pronunciava palavra nenhuma. Os beats foram os precursores ideológicos dos hippies, que ficaram bem mais conhecidos e só surgiram nos anos 60; ambas as tribos eram adeptas da filosofia do Drop Out, ou seja, ao invés de tentar lutar por mudanças no sistema, preferiam cair fora e “curtir a vida” como bem entendessem, bem longe dos que poderiam os incomodar ou mais, mas sem dar importância às críticas e preconceitos dos “caretas”, na orla boêmia, aonde o conceito de normal, pouco a pouco, transformou-se, a ponto do “careta” ser mal-visto e não o jovem beat ou hippie.

Entretanto, não se pode negar que, no plano das idéias, a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre foi uma antecipação daquilo que a contracultura veio propor na esfera comportamental. Sartre e sua mulher, Simone de Beavoir, tinham um comportamento libertino capaz de escandalizar a Europa bem antes das festas de amor livre realizadas pelos hippies nas décadas seguintes. A filosofia sartriana de simplesmente existir, livre e totalmente responsável por essa liberdade, ficou famosa a ponto de virar a popular marchinha de carnaval Chiquita Bacana. Afinal, se seguir uma filosofia existencialista é mesmo fazer aquilo que manda o coração, como manda a letra de 1949 escrita por Alberto Ribeiro e João de Barro, mais conhecido como Braguinha, o surgimento dos hippies poderia ter sido visto como a concretização dos ideais do francês Jean-Paul Sartre.

A contracultura se firmou em cima do tripé sexo, drogas e rock´n´roll e assim que se consolidou ficou clara a importância do antagonismo entre gerações. Uma dualidade jovem / não-jovem foi muito importante para a definição do que era a contracultura, foi então que a juventude passou a se organizar como um poder político autônomo. A geração de pais, presa a própria concepção de mundo, talvez nunca pudesse entender o que os jovens queriam e seus filhos, no fundo, sabiam disto; esse foi o principal motivo do antagonismo impulsionado por ambos os lados. Sobre a música dos anos 60 e alguns de seus maiores ícones, Rolling Stones, Beatles e Bob Dylan, existem duas constantes: a busca por uma arte de autor, mesmo se houver risco de desagradar ao público; e o efeito de drogas ou misticismo transformando a arte. Esta semelhança entre estes três símbolos máximos da música da contracultura é desprendida da observação das trajetórias destes músicos desenhada por Pereira (1986). Já os mentores da contracultura são mais bem desvendados por Rozsak (1972 [1969]). Um a um, ele revela-os: o conceito de uma sociedade doente de Marcuse e Brown; Ginsberg poeta e místico; Allan Watts, orientalista; Huxley; Leary e a sua Liga para Descoberta Espiritual; Ken Kesey e o teste do ácido. Rozsak, na procura pelos pensadores da contracultura e revela a raiz desta: aquilo ao qual ela é contra: a tecnocracia. E, como ele mostra, são variadas as expressões de oposição à Tecnocracia.

Finalmente, houve dois momentos que influenciaram um milhão de jovens através do globo, por sua contestação de valores, rebeldia e uma nova forma de contestação: Woodstock e o Maio de 68 na França. O primeiro marcou o lado lúdico do movimento e continua sendo visto com saudosismo; muitas festas já tentaram reviver o espírito do festival. O evento na França, porém, teve influência redobrada para a contracultura tupiniquim, pois muitos intelectuais brasileiros estavam, por vontade própria ou não, exilados na Europa e puderam assistir aos efeitos demolidores do anarquismo francês, ou como diriam alguns dos próprios participantes da revolta, “marxismo tendência Groucho”, em referência ao comediante Groucho Marx.

Depois de passados 60 anos do seu nascimento, em 1956, com o poema “Howl”, é possível observar a contracultura totalmente absorvida pela cultura de massa, transformada em mais um produto para se escolher, entre tantos outros. O motivo é simples: a rebeldia, como descobriram os empresários, pode ser um produto que vende muito bem. Ou talvez o que exista seja mesmo só uma capa rebelde ou uma cópia da rebeldia feita pra se diferenciar de outras versões mais certinhas e vender mais, que nem a novela dos riquinhos rebeldes. O mais provável, porém, é que os tecnocratas tenham descoberto como vender rebeldia em pequenas doses para impedir, em novas gerações de jovens, o aparecimento do desejo de revolucionar o mundo. Atualmente, a contracultura está finalmente integrada ao Sistema e, talvez por isso mesmo, esteja sumida. Muitos países já legalizaram o consumo de drogas e até as fornecem, em casos médicos. Assim como previa Rozsak, essa legalização não acabou com a tecnocracia nestes países. Apesar de tantos sinais atestando o óbito da contracultura, há quem ache que ela ainda está viva por aí, talvez como uma atitude rebelde, ou simplesmente escondida no espaço virtual da Internet.

Se ainda existe ou não, o fato é que a contracultura existiu no mundo e também aqui, no Brasil. Para entendê-la vamos esquadrinhar três símbolos. Lembrando que a contracultura é, principalmente, um fenômeno comportamental, vamos estudar o “desbunde” no primeiro capítulo desta pesquisa. Tentando entender os jovens que resolviam abandonar os estudos para, na opinião de alguns, cair na “vagabundagem” das “dunas do barato” e de outros locais de rebeldia, sem nem querer pensar em pegar em armas para lutar contra a ditadura. No segundo capítulo trataremos dos poetas marginais; uma geração influenciada pelos beats e que, longe da indústria cultural, faziam seus livros artesanalmente. O último capítulo é dedicado aos jornalistas da imprensa contracultural, responsáveis por boa parte da divulgação da ideologia do movimento.

Para realizar esta pesquisa foram necessárias muitas horas de leitura e idas a bibliotecas (algumas particulares). Quero agradecer aos autores estudados e aos entrevistados, Dau Bastos, Toninho Vaz, e Juliano Serra. Não poderia deixar de agradecer aos professores Marcos Dantas, pelo acesso ao acervo particular e pelas técnicas de pesquisa, e Leonel Aguiar, orientador desta monografia. Por fim, agradeço à minha mulher.

Capítulo 1 – Comportamento: o “Desbunde”

“Desbunde” é uma gíria, inventada no Brasil durante os anos 60, para designar quem abandonava a luta armada. Ela foi evoluindo e passou a designar não só quem tivesse abandonado a resistência ao regime militar governante da Nação, mas toda figura interessada em contracultura a ponto de viver seus ideais. Portanto foi inventada pela esquerda, mas seu emprego foi muito além de círculos trotskistas ou marxistas. Passados tantos anos desde a invenção desta gíria, ela já ganhou o domínio público e basta dizer “desbundado” para vir à mente a imagem de alguém com cabelos longos e roupas coloridas fazendo o símbolo da paz com a mão e segurando uma flor com a outra.

Tal é o ponto da utilização do termo pela população brasileira que a palavra desbunde já é verbete de dicionários respeitados. Vejamos os sentidos em que pode ser compreendida a palavra, segundo o dicionário Aurélio:

1. Ato ou efeito de desbundar.

2. Deslumbramento; loucura.

Definir “desbunde” como loucura ou deslumbramento parece um pouco superficial, mas é assim mesmo que a sociedade sempre viu os hippies: como loucos. A definição do Aurélio está correta para uma sociedade que, talvez, nunca tenha compreendido a figura hippie e o ato ou efeito de “desbundar”. Nos Estados Unidos, onde a democracia nunca foi substituída por uma ditadura, sempre houve muita confusão sobre quem eram e o que queriam os jovens cabeludos que largavam tudo por um ideal, um tanto maluco para toda uma geração de pais, chamado “paz e amor”. Além do mais, os E.U.A nunca tiveram uma esquerda muito expressiva e, por lá, esta tratou de se aliar à contracultura. A ambígua relação entre esquerda e contracultura no Brasil é esclarecida por Toninho Vaz:

A esquerda no Brasil refletia influências da revolução russa, chinesa ou apenas marxista, com base na divisão de trabalho, etc. O foco era a liberdade política e suas conseqüências no socialismo da economia. O prazer, o investimento hedonista, as águas de Eros, estas tinham o estigma do pecado, eram desvio típico dos “porra-loucas” e “desbundados”. Embora utilizando os mesmos meios da contracultura, no que tange a clandestinidade, a esquerda (clandestina ou não) fazia o papel da formiga na fábula com a cigarra. Hoje sabemos que – sem remorso – é possível ser formiguinha durante o dia e cigarra à noite. A terceira via é ser cigarra o tempo todo e foda-se o mundo.[1]

Mas, exatamente quando a indústria cultural se consolida e a estrutura tecnocrática solidifica-se no Brasil, às custas da morte da democracia, começam os jovens a “desbundar” e, com flores nos cabelos, incorporar o estilo de vida hippie. Ainda por cima, tinha-se a censura e a violenta repressão, que chegava a matar e torturar inimigos do regime. Parece que era ser mais difícil ser hippie no Brasil do que nos E.U.A. ou Europa e é por isso que o movimento contracultural não foi tão devastador aqui, se comparado com estes lugares. Em oposição a essa dificuldade, se fala em complacência do regime militar em relação à contracultura, por ela ser uma via menos violenta do que a luta armada, eterna inimiga da ditadura, e em uma liberalidade própria do povo brasileiro.

Rozsak (1972 [1969]), ao analisar a contracultura, principalmente nos Estados Unidos, acreditava que este movimento de jovens rebeldes poderia transformar o mundo profundamente. Para este autor, a contracultura era a maior contestação do modo de vida ocidental já criado e a única esperança de acabar com a tecnocracia e buscar um modo de vida mais humano. Passadas algumas décadas podemos perceber que das teorias de Rozsak sobre o futuro da contracultura, com exceção da crescente incorporação desta pela tecnocracia, nenhuma se concretizou. O mundo mudou, é certo, mas enfim a tecnocracia não foi destruída e, apesar de decadente, ainda mostra bastante fôlego, ao contrario da contracultura. Afinal nos parece é que se houve uma batalha entre a tecnocracia e a contracultura, a segunda nunca teve mesmo muita chance. Talvez não se deveria ter esperado outra coisa, pois os jovens da contracultura talvez não quisessem mesmo mudar o mundo, afinal podiam estar mais preocupados mesmo em “curtir um barato”.

Se fracassar a resistência oferecida pela contracultura, creio que nada nos restará senão aquilo que antiutópicos como Huxley e Orwell previram.[2]

A resistência da contracultura podia ser cheia de efeitos especiais, como a nuvem de fumaça que acompanhava seus membros, e atitudes excêntricas, como a passeata que teve o objetivo de exorcizar e, com o poder da mente, fazer levitar o edifício do Pentágono nos Estados Unidos, mas no Brasil não era a única forma de resistência que se fazia. A luta armada era quem ganhava os louros por resistir heroicamente ao regime militar; seus participantes viviam na clandestinidade para buscar o utópico objetivo de depor o sistema vigente. Já a contracultura nunca pretendeu tomar o poder, ou procurar um modelo de sistema melhor; seus ideais eram mais simples, podendo ser sintetizados em um único pensamento: cair fora do sistema. A busca da contracultura era muito mais centrada no individual que no coletivo e, durante seu percurso, passava bem longe da radicalidade inerente à resistência armada da esquerda.

Portanto, como poderia alguém então chamar de resistentes os jovens que “desbundavam”? Nos Estados Unidos, onde não havia ditadura, podia até ser: resistência à tecnocracia e ao capitalismo. Mas no Brasil, onde naquele momento muitos jovens davam a vida para lutar contra a ditadura, não. Por isso ao hippie brasileiro coube esta palavra pejorativa e um tanto quanto cômica, inventada especialmente para designar, e até mesmo ridicularizar, qualquer um que coubesse dentro do estereótipo do hippie.

1.1 Contexto Histórico

O período dos anos 70 é marcado pela consolidação da Industria Cultural no Brasil e a lógica da procura de lucro tornou-se vigente com esta consolidação. A Rede Globo torna viável um projeto de integração nacional através da televisão. Novas tecnologias transformam o jornalismo impresso, o mercado editorial e o cinema. Os produtos finais dessas indústrias ganharam ótimos acabamentos, antes só encontrados nos exemplares importados. A classe média gozava com os vários produtos modernos e bens simbólicos tornados acessíveis pela prosperidade econômica, embarcando na onda do consumismo. Este é o período das conquistas do regime militar, que legitimou o autoritarismo com progresso.

Se o regime militar trouxe progresso, foi a duras custas. Pois, desde o A.I.5, em 1968, foi instaurada a censura em nosso país. A repressão política fechou partidos políticos, empastelou jornais além de prender, torturar e até matar vários militantes. Ser produtor de cultura nesta época não era nada fácil e até mesmo arriscado. Muitos foram exilados, mas outros tiveram destinos mais cruéis, como foi o caso do cantor Geraldo Vandré, que ficou para sempre aleijado depois de passar por torturas. A indústria cultural abriu suas portas para alguns e destes era exigida a submissão à censura, praticando assim, uma autocensura.

Um sistema tão repressivo era fadado a encontrar alguma resistência. A luta armada foi uma forma violenta de resistir que conseguiu atrair jovens para a vida na clandestinidade. No campo da cultura essa resistência se dava em recusar a nova indústria cultural, símbolo do progresso conquistado pelo regime autoritário. Inspirados nos movimentos contraculturais, ocorridos principalmente nos Estados Unidos durante os anos 60, alguns produtores culturais encontraram a saída para produzir sem atrelar-se a indústria cultural nos mercados alternativos. Escolhendo produzir de forma artesanal para segmentos específicos, mas limitados, da população.

1.2 Cotidiano “Desbundado

Antes de efetivamente “desbundar”, um jovem poderia se ver diante de uma encruzilhada muitas vezes pior do que ficar entre a cruz e a espada. De um lado estava uma vida pacata e adaptada ao sistema, sem espaço para rebeldia. Do outro estava a luta armada e um destino incerto na clandestinidade. Se aquele jovem não conseguia se adaptar ao sistema, mas também não queria saber de dar a vida por ideologias que já pareciam antiquadas, ele não teria muita escolha e sua única opção era “cair fora”.

O cotidiano de quem “desbundava” podia incluir viagens a Arembepi ou Guarapari, morar num sítio com uma comunidade ou em Visconde Mauá. Se fosse morador da cidade do Rio de Janeiro com certeza freqüentaria as “dunas do barato”, a faixa de areia mais “desbundada” de Ipanema, que ganhou seu nome pelo estado de espírito em que seus freqüentadores gostavam de ficar. Mais que o álcool, era a maconha que fazia a cabeça da juventude ouvinte de muito rock, tropicalistas e Novos Baianos; ao fazer uso da droga experimentavam sensações diferentes, mas simplesmente descrita como uma viagem.

Ler Pasquim, sem dúvida, era obrigatório para quem quisesse manter-se antenado, mas existiam muitos outros veículos alguns eram especializados na propagação da contracultura, como Bondinho. Os “desbundados” também gostavam de ler os poetas da geração beat e os poetas que vendiam seus livrinhos mimeografados pela orla boêmia das cidades brasileiras. Nas rodas de bate-papo antenadas, as conversas giravam em torno de existencialismo e “sufoco”, aquele grande sentimento de opressão geral sentido não só pelos jovens, mas por boa parte da população. Misticismo, orientalismo, terapias alternativas, psicologia corporal e ecologia eram temas recorrentes não só nessas conversas, pois muitos de fato buscaram aprender e praticar essas linhas de conhecimento na tentativa de aliviar o “sufoco” ou mesmo de encontrar uma profissão capaz de possibilitar uma existência mais adequada aos padrões de um estilo de vida “desbundado”, mas com o padrão de vida da classe média.

Se o conteúdo daquela juventude era não convencional, o visual era ainda mais extravagante e talvez o que mais incomodou quem fez criticas à contracultura. Os homens deixavam o cabelo crescer até ficar bem grande, enquanto as mulheres deixavam de raspar as pernas, axilas e virilhas; ambos na procura de uma aparência mais natural. O próximo passo, depois de deixar os pelos crescer, era parar de tomar banho e escovar os dentes. O resultado não poderia ser outro: muitos “desbundados” fediam e, além de ter os dentes sujos, invariavelmente, sofriam com dor de dente. As roupas eram, de preferência, velhas, usadas ou desbotadas. Camisetas tingidas com a técnica tie-dye eram bastante populares, assim como calças boca-de-sino. Nada, porém, causou mais impacto no mundo da moda do que a tanga, usada por homens e mulheres. A minúscula tanga, que podia ser fabricada de diferentes materiais, era um violento ataque à moral e aos bons costumes.

Mas foi a sexualidade libertária, principal símbolo do movimento hippie, que talvez tenha chocado mais profundamente a sociedade em geral. Apesar da sociedade brasileira ser sexualmente permissiva, principalmente em tempos de carnaval, o comportamento sexual da contracultura era capaz de escandalizar a nossa sociedade. Isso, por que não se passou longe de bissexualismo, sexo grupal e relacionamentos abertos; práticas ainda hoje não bem aceitas pela sociedade. E era no carnaval que muitas pessoas começavam a descobrir e se permitiam viver esses prazeres envoltos em auras de pecado. Além disso, a liberação sexual feminina causou uma revolução cujo principal produto foi o amor livre e a amizade colorida, possibilidade de amigos fazerem sexo sem compromisso. O comportamento sexual era tão variado que, se não fosse o advento da AIDS, hoje a sociedade ocidental poderia estar muito modificada. Entretanto, com o perigo de doenças sexualmente transmissíveis fatais batendo nas portas das formas não convencionais de amor, experiências de amor livre acabaram abortadas e hoje, por mais que entre quatro paredes muito ainda possa estar sendo feito e que é capaz de chocar até mesmo os hippies mais experientes, não há uma apologia utópica e um tanto cor-de-rosa, como era feita pela juventude liberada dos anos 70.

Invariavelmente, “desbundar” envolvia alguma forma de vagabundagem, às vezes com o apoio monetário da família, em outras não. Se não fosse o caso, o dinheiro viria invariavelmente de uma fonte de renda alternativa, fosse vendendo “cheirinho da Loló” (droga de fabricação caseira de efeito semelhante ao do lança-perfume); algum tipo de artesanato, feito em geral com materiais da natureza coletados em alguma viagem ou trilha; ou arte. Afinal, trabalho duro, pelo menos daquele tipo que exige terno e gravata, nunca combinou muito com contracultura. Havia também quem, bem ao estilo dos jovens norte-americanos que queimavam seus papeis de convocação para a guerra do Vietnã e caiam fora do sistema, ficava sem documentos. Outros, mais ao estilo dos guerrilheiros de esquerda, ficavam mesmo na clandestinidade.

1.3 Mentores da juventude

Dentre todas as expressões culturais estudadas, uma das mais bizarras marcou presença em uma passeata que ocorreu em 21 de outubro de 1967, nos Estados Unidos. Além de estudantes, membros da Nova Esquerda e homens de letras (como Norman Mailer, que sobre essa passeata escreveu o livro “Exércitos da noite”); estavam lá bruxos, druidas, necromantes, xamãs, bardos e loucos. O acontecimento maior daquele dia foi o exorcismo do Pentágono e tentativa de levitá-lo com a força do pensamento. Este estranho evento aponta para uma inclinação mística presente na contracultura desde os tempos dos beatniks. Portanto, entre os mentores daquela juventude podemos contar com todo tipo de esotérico, de Aleister Crowle a Nostradamus, passando por Carlos Castaneda, autor de uma vasta e famosa obra relatando sua iniciação na milenar tradição mística do xamãnismo Yaqui mexicano. Castaneda, sob a instrução do bruxo Don Juan, utilizava “plantas de poder” para alterar a percepção e até viajar para outras dimensões; suas obras foram muito lidas e estudadas, não só por esotéricos, mas também por quem queria participar de “viagens” psicodélicas.

Allen Ginsberg professou a busca de Deus em seus primeiros poemas, muito antes de seus colegas descobrirem o Zen. Estes primeiros poemas contrastam com a obra posterior, mais popular e marcada pelas experiências com drogas feitas por ele na década de 40. Ginsberg é desde o começo um poeta de protesto, mas seu protesto não emana de Marx, mas flui do radicalismo extático de Willian Blake. No começo dos anos 50 Ginsberg abandona essas virtudes literárias em favor de um fluxo espontâneo e incontido de linguagem. Então tudo que escreve parece ser servido cru, na forma como deve ter saído da mente e da boca. Não há sinal de ter sido revisto. “Há neles uma procura por concisão e objetividade, antes que a energia se dissipe.”[3] Ginsberg então se voltou para o orientalismo e, depois dele, multidões de hippies no mundo todo também. Jack Kerouac e Ginberg aprenderam sobre o Zen ao chegarem em São Francisco, no começo da década de 50, mas, segundo afirmação do próprio Ginsberg, este só atingiu em 1954 o Satori Zen, ou iluminação. Ou seja, os beats, ou pelo menos alguns deles, realmente eram crentes nas filosofias orientais. Porém, pelo menos para Roszak, Allan Watts foi o mais influente escritor sobre o orientalismo. Em 1950, Watts, com apenas 35 anos, chegou em São Francisco trazendo em sua bagagem sete livros sobre o Zen. Coube a ele o esforço de traduzir os princípios do Zen e do Taoísmo para a linguagem da ciência ocidental e da psicologia.

Ginsberg corporificou a rebeldia da juventude e Watts conseguiu aproximar e traduzir o Oriente, mas foi Herbert Marcuse o escolhido pelos jovens para o papel de principal mentor da contracultura. Pois foi ele que, ao reinterpretar a teoria psicanalítica de Freud, conseguiu, a partir dos princípios freudianos de pulsão de vida e de morte combinados com um estudo da própria civilização, chegar na possibilidade da não-repressão, rapidamente adotada pela libertária juventude. Segundo ele, seria possível para a civilização se religar com Eros, o princípio do prazer, e acabar com a repressão sexual. Era a explicação teórica para o comportamento sexualmente livre adotado pelos jovens mais rebeldes. Para Marcuse, história do homem é, para Freud, a história de sua repressão[4]. Isso por que o homem troca o prazer por segurança e cria civilização. Mas é a noção de que uma sociedade não-repressiva é impossível, presente em Freud, que Marcuse desconstrói, apontando a repressão como causa da violência e a não-repressão como única solução.

A civilização mergulha numa dialética destrutiva: as restrições perpétuas sobre Eros enfraquecem, em última instância, os instintos vitais e, assim, fortalecem e liberam as próprias forças contra as quais eles foram mobilizando - as de destruição.[5]

1.4 Terapias e medicina alternativa

Freqüentemente frustrada com as terapias psicanalíticas e a psiquiatria, a contracultura procurou diferentes e, muitas vezes, exóticas formas de cura. Quando nenhuma parecia se adequar, a solução era criar uma nova terapia. Foi o que fez o escritor Roberto Freire no início da década de 70. A partir da pesquisas do austríaco Wilhen Reich, Freire criou a terapia anarquista batizada de Soma. Freire, assim como Reich, tinha diferenças ideológicas com a psicanálise e a psicologia tradicional; Reich enfatizava a repressão sexual como causa da neurose e a relação do corpo com o inconsciente. Freire para ajudar seus companheiros na luta clandestina contra a ditadura militar, criou a Soma, uma técnica terapêutica corporal e em grupo, focada numa política anarquista no cotidiano e buscando o desbloqueio da criatividade. Após 30 anos levando a Soma para várias cidades do País e carregando a bandeira do tesão, Roberto Freire ainda supervisiona o trabalho do Coletivo Brancaleone, criado em 1992 para pesquisar Soma e com sede no Rio de Janeiro. Autor de muitos livros, como Sem tesão não há solução (1987), Freire vendeu mais de 200 mil exemplares[6] com seu primeiro romance Cleo e Daniel (1966), publicado no ousado formato jornal-livro, verdadeiro best-seller entre a juventude dos anos 70. Já a Soma continua sendo praticada; os grupos duram um ano e meio e há, no Coletivo Brancaleone, três somaterapeutas atuando, além de dois assistentes em processo de formação.

A dieta macrobiótica chegou em terras brasileiras no início dos anos 70 e rapidamente ganhou muitos adeptos. A dieta que ficou conhecida com macrô foi criada no Japão por Michio Kushi durante o final da década de 60. O principal alimento é o arroz integral, mas outros cereais, algas marinhas e até peixes faziam parte da dieta. Por outro lado, a medicina alternativa já era praticada a milhares de anos, e foi apenas redescoberta pela contracultura. Atualmente, ela é bem aceita pela ciência, principalmente se for usada de modo a complementar à medicina tradicional. Em geral elas se baseiam em culturas populares como, por exemplo, a acupuntura chinesa. Outras técnicas, como florais de Bach, cromoterapia e tantas outras foram utilizadas com efeitos benéficos primeiro pelos hippies, algumas vezes nos próprios países de origem destas técnicas.

No Brasil, principalmente nas regiões norte e nordeste, a pratica de fazer “garrafadas” e outros remédios provenientes da natureza e da sabedoria do povo é ampla e difundida; os produtos são avidamente consumidos. Basta visitar o famoso mercado Ver-o-Peso, em Belém, capital do Pará, lá, há curas para todos os males. Até sapo vira remédio; e muitos hippies, ou “bichos grilos”, como também foram chamados, não devem ter passado longe destas medicinas alternativas tupiniquins, durante as populares longas viagens com mochilas nas costas; depois ajudavam a popularizá-la quando voltavam para locais onde estas práticas não são tão comuns. Atualmente, mesmo em grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, há utilização de medicamentos indígenas; conseqüência de um crescimento na demanda causado após os pareceres favoráveis dos “mochileiros” que sentiram no próprio corpo ou viram os efeitos benéficos desses medicamentos. Apesar de, pelo menos segundo algumas pessoas, funcionar, ainda não é bem estudada pela ciência brasileira. O resultado é essa cultura popular muitas vezes caindo nas mãos de empresas estrangeiras, que patenteiam flora e fauna nativas do Brasil. Talvez a causa para este prejuízo seja o preconceito da ciência brasileira com a cultura popular; o mesmo preconceito que talvez tenha sido responsável pelo potencial contracultural não ter sido totalmente aproveitado pela sociedade, que absorveu da contracultura apenas as partes mais facilmente digeríveis e aceitáveis para os valores da tecnocracia.

1.5 Fascínio por drogas

Se há um elemento do comportamento contracultural capaz de causar aversão, além de ser responsável por várias prisões e outras violências, é o costume de usar drogas ilegais na maior parte do mundo, inclusive no Brasil. Apesar de ilegal, o uso de maconha e LSD foi amplamente praticado, e até mesmo divulgado. Por exemplo: o título da música Lucy in the Sky with Diamonds, dos The Beatles, é uma referencia ao LSD. A maconha, apesar de ser utilizada a milhares de anos, foi durante aquela época largamente associada à paz e fumar a erva era considerado uma forma de protesto contra a guerra e a violência; muito diferente de hoje, quando a droga é mais associada às mortes causadas pelas guerras do tráfico. Para Roszak, o fascínio pelas drogas psicodélicas é um denominador comum das formas que tomou a contracultura depois da II Guerra Mundial. A experiência psicodélica é um elemento da rejeição radical da sociedade adulta por parte dos jovens.

Se aceitarmos a tese de que a contracultura constitui, em essência, uma exploração da política de consciência, a experiência psicodélica torna-se um, mas apenas um, método de se organizar essa exploração. Torna-se um meio químico limitado para um fim psíquico maior, ou seja, a reformulação da personalidade.[7]

Na tentativa de “recuperar o valor de tradições culturais desprezadas, para as quais não existia nenhum método disciplinado de estudo”[8], Aldous Huxley e Allan Watts empreenderam experiências psicodélicas durante os anos 50 e ambos fizeram analogias entre a droga e dispositivos de exploração como o microscópio. Enfim, foi exatamente um status cultural que tentaram dar à droga, por toda orla boêmia mundial. Porém, o maior apologista da droga foi o Ph.D. Timothy Leary, responsável pela propagação da idéia que LSD tem algo a ver com religião. Seu mais importante livro, A experiência psicodélica (1964), é um guia para usar o ácido de uma forma mística. Leary, após ser expulso de Harvard por causa de suas experiências com LSD-25, criou a Liga para Descobertas Espirituais e teve entre seus discípulos celebridades como Jonh Lennon e Yoko Ono. Autor da célebre frase “Ligue-se, Sintonize-se e Cai fora![9]”, importante máxima contracultural, Leary morreu em 31 de maio de 1996, mas suas idéias continuam a influenciar pessoas.

Entretanto, segundo Bahiana (2006), no Brasil o ácido lisérgico era caro e relativamente raro e para “viajar” o cogumelo era usado com mais freqüência. Os efeitos dos cogumelos são muito similares aos do LSD e ainda tinham uma enorme vantagem em relação à hóstia de Timothy Leary, são totalmente de graça. O cogumelo nativo do Brasil nasce em excrementos de gado bovino, principalmente nos da espécie zebu.

Não é difícil imaginar as fantásticas cenas de figuras cabeludas vagando por pastos em busca de placas de bosta de vaca, e forjando peculiares amizades com criadores de zebu. Uma vez obtido o precioso cogumelo, a técnica pedia que fosse transformado em chá para extração de seu princípio ativo (e psicodélico), a psilocibina.[10]

Sem dúvida, a droga mais consumida pela contracultura brasileira foi a maconha. Confeccionada em forma de cigarro, a maconha era fumada em rodas e compartilhada, até com estranhos. Apesar do amplo consumo, o porte da “erva maldita” era proibido e, mesmo em pequenas quantidades, levava à prisão. Muitas pessoas foram parar em cadeias por fumar ou portar maconha. O poeta Waly Salomão, por exemplo, ficou na cadeia do Carandiru, em São Paulo[11]; Rita Lee cumpriu um ano de prisão domiciliar e Gilberto Gil foi preso e internado num sanatório[12].

1.6 Locais da contracultura

Katamandu, Marraquesh, Ashbury Heights, Califórnia... O mundo teve muitos locais com a capacidade de agregar e atrair todos aqueles cujos ideais se adequavam aos da contracultura. Também foi assim no Brasil. O Rio de Janeiro era, durante os anos 70, capaz de proporcionar um estilo de vida alternativo para seus habitantes, se assim escolhessem. Dois locais desta cidade merecem atenção especial por terem marcado profundamente quem viveu aquela época: as Dunas do Barato e o Solar da Fossa. Localizadas onde hoje é o Posto 9, na praia de Ipanema, as Dunas do Barato ou Gal era onde ficavam os “desbundados”. As dunas tinham apareceram em função da construção de um píer em 1970[13] e foram habitadas primeiro por surfistas. Estes ficaram do lado direito do píer, deixando o lado esquerdo para jovens que conversavam e fumavam maconha, daí o popular apelido do lugar. O outro nome, Dunas da Gal, é uma homenagem a uma ilustre freqüentadora d lugar, Gal Costa. Muitos outros artistas e intelectuais também freqüentavam a faixa de areia. O píer foi demolido a dinamite em 1974, com a conclusão da obra do emissário submarino de esgoto, mas o local continua popular até hoje. Já o Solar da Fossa era uma enorme pensão, localizada em Botafogo, onde hoje é o shopping Rio Sul, e ganhou este nome por causa do estado emocional dos seus moradores, alguns deles famosos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Leminski, Paulo Coelho, Tim Maia e tantos outros. O jornalista Toninho Vaz atualmente está escrevendo um livro sobre o lugar e afirma:

Ali estavam porras-loucas, revolucionários, cabeludos, destemidos, grandes talentos e garotas espetaculares que não tinham medo de transar. Para melhor apreciar e entender o fenômeno da contracultura brasileira, o Solar deveria ir para a lâmina do microscópio. Todos os vestígios típicos dos anos 60 vão aparecer nos 85 apartamentos da pensão Santa Teresinha, como era o nome oficial. Pelo menos nos três primeiros anos (dos oito de existência) todos pagavam aluguel, depois o esquema foi se alterando e, nos dois últimos anos, ninguém pagava aluguel.

Ficaram famosos os passeios da Maria Gladyz, completamente nua pelos corredores do Solar, talvez sob o pretexto de fazer “laboratório de teatro”. Audácia e ousadia eram impulsos comuns entre estes jovens. Como diz o Roberto Talma na abertura do meu livro: “No Solar da Fossa – onde havia um grande elenco de mulheres bonitas – se você não tivesse alguma literatura, um pensamento filosófico atualizado, uma conversa definida sobre arte, você não comia ninguém.”[14]

Arembepe, que na língua Tupi quer dizer à volta ou em torno da gente, é uma vila de pescadores na Bahia, situada a 30 km de Salvador; e foi onde se formou a primeira comunidade hippie do Brasil. Depois disso, ficou tão famosa que atraiu nomes como Janis Joplin e Mick Jagger, que em sua primeira vez no Brasil foi direto para Arembepe[15]. Segundo o jornal Bondinho, “Em 1972 Arembepe foi uma Woodstock não programada”[16]. Muitas pessoas passaram por lá; como Laís Shambalah, carioca, moradora de Arembepe e com 21 anos em 1972. Ela viu a chegada dos hippies e contou de maneira simples para o Bondinho, em uma entrevista sobre a vila, como começou a comunidade hippie: “e cada dia pintava mochileiro”[17].



[1] Anexo.

[2] ROSZAK, Theodore (1972 [1969]).

[3] Idem.

[4] MARCUSE, Herbert (1968[1966]).

[5] Idem.

[6] http://www.somaterapia.com.br acessado em 23/11/2006.

[7] ROSZAK, Theodore. Op. cit.

[8] Idem.

[9] Em inglês: Tune in, Turn on and Drop out!

[10] BAHIANA, Ana Maria (2006).

[11] SALOMÃO, Waly (2003).

[12] BAHIANA, Ana Maria. Op. cit.

[13] Idem.

[14] Anexo.

[15] Bondinho. Edição de 17 a 30/3 de 1972.

[16] Idem.

[17] Ibdem.